1. 1999-08-04
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A indústria açucareira

O primeiro ramo industrial do Brasil. O açúcar e derivados teve e ainda tem uma grande importância na indústria brasileira.

História da Indústria Goiana

Sem dúvidas podemos afirmar que a primeira indústria brasileira foi a do açúcar entre os séculos XVI até início do século XVIII. A mão de obra e força motriz de toda a produção manufaturada era escrava, tanto que o braço escravo era considerado quase mais importante do que a tração animal, que nesse período eram raros e caros. E com esse pensamento de economia de mão-de-obra e um número maior de escravos, os senhores de engenho incentivavam eles a se reproduzir, pois em média um escravo durava sete anos. Estes que eram trazidos da África, considerando esta a mais lucrativa e bem-sucedida forma de comércio não apenas no Brasil, mas em todo mundo. Os escravos trazidos tinham como foco além da produção principal, o cultivo de mandioca, pois esta os alimentava e algodão que os vestia. Havia também produção de instrumentos de trabalho para uso dos escravos.

A cana-de-açúcar, uma planta nativa do sudeste da Ásia, foi levada pelos portugueses para a Ilha da Madeira, próximo da costa portuguesa onde ocorreu a primeira experiência do plantio. Em seguida, após a colonização, veio para o Brasil. Na região nordeste, destacou-se os engenhos de cana-de-açúcar na região da Zona da Mata, uma faixa litorânea que vai da Bahia ao Rio Grande do Norte. Considera-se o açúcar como a primeira grande atividade agrícola e industrial no Brasil sendo que todo montante produzido era exportado para Portugal. O cultivo da cana adaptou-se em terras brasileiras, produto este que tem bons resultados em regiões de clima seco, e a região nordeste em especial as cidades de Salvador e Olinda, possuíam um solo fértil (massapê), propício para o cultivo do produto. Por mais que a região nordeste tenha um destaque na produção de açúcar no período do Brasil Colonial, os primeiros canaviais foram plantados no litoral de São Paulo por Martim Affonso de Sousa, donatário da Capitania de São Vicente que se associou com o mercador holandês Johan van Hielst que mais tarde fez negócios com um banqueiro chamado Erasmus Schetz juntos fundando o primeiro engenho de açúcar em 1533. Quase um século depois os holandeses invadiram o Estado de Pernambuco onde existiam aproximadamente 130 engenhos, ali permaneceram por mais de uma década adquirindo experiência no cultivo da cana. Nesse mesmo período em Amsterdã já existiam 25 refinarias e grande parte da produção no Brasil era refinado lá e distribuído para Europa, afinal o açúcar era um produto para comércio exterior.

Um fato interessante que condiz com a produção do açúcar foi uma técnica desenvolvida por Andrés Marggraf, químico prussiano, em 1747 que conseguiu extrair açúcar a partir da beterraba. Em 1808 a Inglaterra promoveu o bloqueio continental impedindo a Europa de receber o açúcar vindo das colônias. Os britânicos com seu poderio bélico e naval quis inibir o avanço das tropas napoleônicas. Sendo assim, Napoleão incentivou a produção do açúcar tendo como matéria prima a beterraba, somado com técnicas e maquinários já existentes que possibilitaram tal feito. A produção da cana-de-açúcar estruturou-se com a soma de elementos primordiais para sua produção: clima propício, mão de obra escrava vinda da África, terra virgem sem pragas e o engenho considerado um avanço tecnológico para aquele período. O engenho era considerado uma empresa industrial complexa com uma divisão estrutural, facilitando os processos de produção do açúcar e água-ardente. Ele era dividido da seguinte forma:

Canavial: onde o açúcar era cultivado nas grandes extensões de terra denominadas de latifúndios. Ali começava o processo, ou seja, o plantio e a colheita do produto.

Moenda: local para moer ou esmagar o produto utilizado principalmente, pela tração animal, onde era esmagado o caule e extraído o caldo da cana. Podiam também ter moendas que utilizavam a energia proveniente da água (moinho) ou ainda ela força humana: dos próprios escravos.

Casa das Caldeiras: aquecimento do produto em tachos de cobre.

Casa das Fornalhas: uma espécie de cozinha que abrigava grandes fornos que aqueciam o produto e o transformavam em melaço de cana.

Casa de Purgar: local onde era refinado o açúcar e finalizado o processo.

Plantações: Além dos canaviais, havia as plantações de subsistência (hortas), em que eram cultivados outros tipos de produtos (frutas, verduras e legumes) destinados à alimentação da população.

Casa Grande: representava o centro do poder dos engenhos, sendo o local onde habitava os senhores do engenho (ricos proprietários de terras) e sua família.

Senzala: locais que abrigavam os escravos. Apresentam condições muito precárias, donde os escravos dormiam no chão de terra batida. Durante a noite, eles eram acorrentados para evitar a fuga.

Capela: erigida para representar a religiosidade dos habitantes do engenho, sobretudo, dos portugueses. Local onde ocorriam as missas e as principais manifestações católicas (batismo, casamento, etc.). Vale lembrar que os escravos muitas vezes, eram obrigados a participarem dos cultos.

Casas de Trabalhadores Livres: pequenas e simples habitações onde viviam outros trabalhadores do engenho que não eram escravos, geralmente os fazendeiros que não possuíam recursos.

Curral: local que abrigava os animais usados nos engenhos seja para o transporte (produtos e pessoas), nas moedas de tração animal ou para alimentação da população.

Devido o tamanho de alguns engenhos e pelo número de pessoas que trabalhavam, pequenas cidades eram formadas sendo que no século XVII o Brasil contava com aproximadamente 490 engenhos, principalmente na região nordeste. A indústria açucareira moveu bastante a economia no Brasil Colonial entre meados do século XVI e meados do século XVIII. No início do século XVIII o ciclo da cana-de-açúcar entra em declínio devido à expulsão dos Holandeses que se fixaram em Pernambuco. Sem dúvidas eles não queriam desistir de vez de investir na produção desse produto que era tão rentável e valorizado na Europa, daí então eles começaram a cultivar o produto nas Antilhas que eram pequenas ilhas localizadas na América Central de domínio holandês e vende-lo por um valor bem mais barato do que o açúcar brasileiro. Em virtude disso, o açúcar holandês passou a ser um forte concorrente do açúcar brasileiro e além dos mais, eles controlavam o comércio e transporte na Europa. Nesse mesmo período, começou a corrida do ouro devido à descoberta de jazidas do mineral no sul de Minas Gerais fato que também culminou a crise açucareira no Brasil.

Curiosidades:

• Os territórios dos atuais estados da Bahia e Pernambuco foram os locais de maior concentração de engenhos de açúcar no Brasil Colonial. Logo, foram as regiões que apresentaram maior produção e exportação do produto.
• No começo do Ciclo do Açúcar (segunda metade do século XVI), muitos senhores de engenho utilizaram mão-de-obra indígena na produção açucareira. Porém, com forte oposição dos padres jesuítas, esta opção foi deixada de lado em favor da mão-de-obra escrava africana.
• Ao contrário da atualidade, o açúcar do período colonial era caracterizado pela presença de muitas impurezas. Ele era consumido, principalmente, em formato de pequenos torrões. Era um produto muito desejado na Europa, porém, em função do seu alto preço, era consumido somente pelos membros da elite.

E o açúcar no século XXI?

Duas indústrias no Vale do São Patrício, norte do estado de Goiás destacam no plantio da cana. Dessa matéria prima é extraído açúcar, etanol, energia, saneantes (álcool em gel, líquido, hospitalar, etílico etc.). Indústrias canavieiras de grande porte estão em vários estados brasileiros adotando e investindo em energia renovável com melhor custo benefício e cooperando na preservação do meio ambiente que é o foco na visão da maioria dos industriários do século XXI. Novas tecnologias estão sendo adotadas para facilitar e ampliar as produções, gastando menos e produzindo mais. As exportações é o foco da maioria das indústrias que produz o açúcar e seus derivados. Muitos países do exterior preferem importar a produzir, pois às vezes fica mais barato, e talvez o país comprador não possuir um clima ideal para cultivo. Em Goiás no ano de 2018, estimam que a colheita seja de 4,65 milhões de toneladas aproximadamente. Uma indústria que gera emprego, renda e fomenta a economia.

Assista aqui depoimento sobre a indústria do açúcar em Goiás!

Texto: Valter Lopes – Historiador

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FONTES:
Palacin, Luis – Sociedade Colonial (1549-1599). Goiânia, Ed. Da Universidade Federal de Goiás, 1981. 234 p.
Bueno, Eduardo. Produto nacional: uma história da indústria no Brasil / Eduardo Bueno. – Brasília: CNI, 2008. 240 p. : il
https://alunosonline.uol.com.br/historia-do-brasil/trabalho-escravo-africano-nos-engenhos-coloniais.html
https://www.conab.gov.br/info-agro/safras/cana/boletim-da-safra-de-cana-de-acucar 
http://www.udop.com.br/index.php?item=noticias&cod=993

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