A indústria do leite tornou-se gigante por causa dos investimentos na alimentação e na genética dos rebanhos.
- 1952-07-17
- 1952-07-17
A Indústria do Leite em Goiás
História da Indústria Goiana
Um pequeno esboço sobre leite e seus derivados
Historiadores apontam em suas pesquisas que a vaca foi um dos primeiros animais a serem domesticados na História da humanidade e isso ocorreu no início da agricultura no Oriente Médio, período onde o homem passa de caçador-coletor a agricultor. A cabra veio logo em seguida e depois a ovelha, todos aproximadamente entre, 9000 e 8000 a.C.. Durante a Idade Média o leite era consumido fresco, pois não havia refrigeração e o queijo – que foi descoberto acidentalmente – após ser deixado armazenado em uma determinada temperatura por alguns dias, ocorria à separação do soro, gerando assim uma massa sólida, o conhecido queijo, que não se sabe exatamente o seu local de origem; alguns estudiosos apontam para região da Ásia, Europa Central ou Oriente Médio. Já no período da Revolução Industrial do século XVIII com a invenção de maquinário, foi possível refrigerar o leite e processá-lo. Em 1864 o francês Louis Pasteur criou o método de pasteurização que mais tarde em 1886 foi aplicado no leito pelo microbiologista alemão Franz von Soxhlet especializado em química agrícola. Com esses avanços o leite passou a ter mais durabilidade mantendo a qualidade e a higiene que precisava para ser consumido em sua forma natural (líquido) e em seus inúmeros tipos de queijos e derivados.
A chegada e o aumento de bovinos no Brasil
Como se deu a chegada dos primeiros bovinos no Brasil? Segundo o escritor Fortunato Pimentel o primeiro gado a adentrar em território brasileiro foi oriundo das ilhas de Cabo Verde chegando e fixando primeiramente na Capitania de São Vicente, fundada por Martim Afonso do Sousa no litoral do atual estado de São Paulo. Em 1549 com a chegada de Tomé de Sousa o primeiro Governador Geral do Brasil, as criações de gado foram se alastrando pelo litoral e mais animais foram importados chegando abranger parte do Maranhão, Piauí, Paraíba e Ceará. Durante o Brasil Colônia (1500 – 1822), a criação de gado era pequena e ainda não era considerado um produto rentável.
Antes das cidades se tornarem grandes e desenvolvidas um grande número de pessoas, famílias moravam na zona rural onde viviam da agricultura de subsistência. Junto da agricultura as famílias criavam aves, suínos, equinos (que ajudavam no preparo da terra) e bovinos que além de fornecerem a carne forneciam o leite usado para beber, fazer queijos e manteiga. De forma simples e rudimentar vacas e até cabras forneciam o leite que na época, meados 1930, 1960 eram transportados em latões na carroceria de caminhões que passavam de fazenda em fazenda coletando o leite e derivados a serem levados para feiras e comércios das cidades mais próximas. Foram tempos difíceis. As estradas não eram asfaltadas, quando chovia, era impossível trafegar, pois o leite é um produto perecível, não existia um transporte adequado e nem um armazenamento que prolongava a qualidade do leite, e nas fazendas além de não existir tanques de armazenamento refrigerados a energia era instável e algumas propriedades usavam geradores de energia movidos a diesel. Vários produtores foram protagonizando e ampliando as formas de produção de leite procurando melhorar a genética dos rebanhos, a alimentação e o armazenamento para que pudesse ter mais durabilidade mantendo a qualidade original. Segundo o Sr. Luiz Magno de Carvalho, técnico agropecuário, comenta no vídeo que na década de sessenta começaram algumas tecnologias no leite a partir da alimentação onde os produtores começaram a plantar o chamado capim elefante para fazer silagem (hoje se usa silagem de milho), alguns investiram comprando touros de raça holandesa e suíça procurando uma melhoria genética do rebanho, daí começou haver uma preocupação de assistência técnica para acompanhar a progressão dos animais, pois o rebanho estava aumentando, outros estados do país começaram criar os animais para produzir leite e derivados e para que isso avançasse teria que haver uma melhora na qualidade não apenas na quantidade.
O começo da indústria láctea em Goiás
Voltando um pouco na História, sabe-se bem que o estado de Goiás ficou abandonado por muitos séculos até ser descoberto ouro em várias regiões pelos desbravadores paulistas, os Bandeirantes. Após o declínio da mineração, sobraram pequenos arraiais e cidadezinhas fundadas no período áureo da exploração aurífera e as pessoas tinham que organizar um novo modelo de sobrevivência, e algo que Goiás tinha em abundância era vastas extensões de terra propícia para agricultura e criação de gado, rios, pastagens, clima e um modelo de “autotransporte” onde o próprio gado se movimentava para o local que seus donos os guiassem sem a necessidade de um veículo para transportar isentando os criadores de custos. As mesmas rotas usadas para levar ouro até o litoral foram usadas para conduzir uma grande quantidade de bovinos às terras goianas. Mesmo em meio a dificuldades e desafios várias pessoas apostaram que a criação de gado que além de ser uma forma de sobrevivência poderia ser uma renda, e a partir daí começou as pequenas fábricas produzindo do leite a manteiga, queijos e o creme de leite.
Nos anos de 1950, Goiás possuía 11 fábricas de manteiga espalhadas pelo interior nas cidades de Pires do Rio, Buriti Alegre, Jaraguá, Araguari, Morrinhos entre outras e estas funcionavam apenas seis meses por ano devido ao período de seca e estes produtores possuíam rebanhos pequenos de baixa produção sendo que os próprios fazendeiros e seus funcionários faziam todo o trabalho de desnatar o leite de forma manual separando a gordura transformando-a em creme. Na mesma década foi fundada a Piracanjuba tendo sua primeira fábrica na cidade de Piracanjuba, Goiás. Hoje uma gigante empresa comandada pelos irmãos Cesar Helou e Marcos Helou filhos do Sr. Saladi Helou e D. Cleópatra que em 1974 trocaram uma casa em São Paulo pela pequena fábrica localizada na cidade de Piracanjuba. Veja a História contada!
Em 1964, o produtor Domingos Vilefort Orzil fundou o Laticínios Morrinhos Ltda. e a marca Leitbom sendo o pioneiro na produção de leite longa vida em caixa tetra park. Por volta de 1980, segundo Sr. Domingos, construiu a segunda fábrica de leite em pó de Goiás na cidade de São Luís de Montes Belos, sendo que a primeira foi pela Companhia Goiana de Laticínios Ltda. em 1976 dirigida na época pelo Dr. Ovídio Inácio Carneiro (vice-presidente da FIEG por 24 anos), José João de Mendonça e José Carlos Sampaio Meirelles. A fábrica desses visionários goianos produzia 150 mil litros de leite por dia e 16 toneladas por dia de leite em pó abastecendo as cidades de Goiatuba, Goiânia, Brasília e Itumbiara. (Confira matéria da Revista Goiás Industrial).
Com o surgimento de vários produtores em Goiás, viu-se a necessidade de unir em pró de um objetivo: aumentar a produção de leite e derivados e tornar a indústria láctea cada vez maior. Foi nesse intuito que os produtores fundaram a ALBRACEM – Associação dos Laticinistas do Brasil Central para ir à busca de incentivos para melhorar a qualidade dos produtos, adequação de leis, melhoria de estradas e vários outros problemas que afetavam os produtores, problemas estes que poderiam ser resolvido com a união da classe e juntos levando petições as autoridades competentes. Já em 1989 a Associação transforma-se em Sindicato. O SINDILEITE - Sindicato das Indústrias de Laticínios no Estado de Goiás agora com mais força em pró a indústria do leite em Goiás.
No Brasil as regiões sul e sudeste, em especial Minas Gerais, são os maiores produtores de leite do país e o estado de Goiás está na 4ª colocação no ranking segundo levantamentos estatísticos trimestrais do IBGE. Goiás tem um potencial enorme para evoluir mais ainda, pois tem a vantagem de também ser um grande produtor de grãos que além de servir para consumo humano, serve para produção de alimento para os animais. A indústria do leite enfrentou e continua enfrentando desafios, desafios estes que poderão ser vencidos com estratégias e investimentos cada vez maiores.
Texto: Valter Lopes
FONTES:
MONTEIRO, Adenilson Abranches. Tecnologia de produção de derivados de leite / Adenilson Abranches Monteiro, Ana Clarissa dos Santos Pires, Emiliane Andrade Araújo. – Viçosa, MG: Ed. UFV, 2007. 81p. : il. ; 21cm. – (Cadernos didáticos ; 120.)
SIQUEIRA, Michel Chelala. Piracanjuba 60 anos: uma história de sucesso / Michel Chelala Siqueira. – São Paulo: Instituto Biográfico do Brasil – IBB, 2015.
BERTRAN, Paulo. História da Terra e do Homem no Planalto Central. Eco-história do Distrito Federal. 1. Ed. Brasília: Solo Editores, 1994.
PIMENTEL, Fortunato. Charqueadas e frigoríficos – aspectos gerais da indústria pastoril no Rio Grande do Sul. Data desconhecida.
SILVA, BOAVENTURA e FIORAVANTI. História do Povoamento Bovino no Brasil Central. Revista UFG, Ano XIII nº 13 – Dez. 2012.