1. Mar
  2. 1947

A indústria pós-guerra

Quando falamos de Guerra, vem a mente a ideia de destruição, bombas, morte e sangue. Querendo ou não, as Guerras trouxeram benefícios que hoje fazem parte do nosso dia a dia.

História do Brasil

Alemães na tricheira se organizando para atacar as forças inimigas

A Primeira Guerra Mundial (1914 - 1918) e a Segunda Guerra Mundial (1939 - 1945) causou um grande impacto em todo o mundo, em termos políticos, econômicos e com um fim lastimoso. Os eventos ocorreram na Europa e dentre os principais motivos, disputas políticas por território, economia estagnada, monopólio e busca por poder. No início do século XX, o mundo, em especial Europa e Estados Unidos, viviam o apogeu da industrialização onde máquinas, equipamentos, variados tipos de produtos e armas estavam sendo fabricadas em larga escala. Diferente de vários conflitos armados durante a História do mundo, as guerras mundiais, em plena era capitalista não seriam com cavalos, arco e flecha e sim com tanques de guerra, artilharia pesada e muita munição. Ao falar sobre guerras, sem dúvidas, a primeira ideia vem à mente é morte, destruição, fome e um cenário caótico impossível de imaginar uma reconstrução.

No final do século XIX com a industrialização em crescimento a demanda de matéria prima para a indústria era grande e desde as primeiras navegações em busca de especiarias nas regiões afro-asiáticas, alguns países europeus como Inglaterra e França tinham maior domínio comercial em um período chamado colonialismo e inúmeras guerras ocorreram no decorrer dos séculos entre países em busca de domínio territorial e comercial através de suas políticas imperialistas.

No início do século XX esse cenário começou a mudar. Grandes potências entraram em conflito pela busca de um monopólio comercial, fato que não agradou alguns países, e isto culminou a Primeira Guerra Mundial onde de um lado estava a Tríplice Aliança formada em 1882 por Itália, Império Austro-Húngaro e Alemanha (a Itália passou para a Tríplice Entente em 1915). Do outro lado a Tríplice Entente, formada em 1907, com a participação de França, Rússia e Reino Unido. Milhões de militares foram mobilizados para a guerra, enquanto isso, as fábricas de armamentos bélicos começaram a funcionar vinte e quatro horas por dia tendo como maior parte de sua mão de obra mulheres e crianças. Após início da 1ª Guerra Mundial, as indústrias intensificaram o fluxo de produção para atender as demandas, e pode-se afirmar que a guerra foi um incentivo às indústrias na Europa e também no Brasil. Nesse período o Brasil estava no ápice da produção de café e devido à guerra, as indústrias focaram mais na produção de armamentos e utensílios considerados essenciais. Houve uma oscilação na exportação dos grãos que teve queda no preço, mas isso levou o Governo brasileiro a observar que era necessário investir mais internamente, pois com o fim da guerra o Brasil não se tornou altamente industrializado, mas proporcionou o surgimento de vários estabelecimentos fabris e aproveitou de certas vantagens para começar a se modernizar em ritmo mais acelerado.

Após o término da Guerra (1918), o mundo sofre com uma crise econômica assustadora que abalou a estrutura do capitalismo. Os Estados Unidos lucrou vendendo armas, comida, aço, carvão e itens para suprir a guerra e ao entrar na década de 20, a superprodução agrícola não acompanharam o consumo e a produção das indústrias que além de atender as importações, atendia o consumo interno, acumulando assim, produtos os quais não tinham mais consumidores. O Brasil sofreu os reflexos da crise que fez cair o preço do café, uma grande desvalorização do produto que deixou os armazéns abarrotados, pois o seu maior consumidor os EUA, encalhou na crise que em 1929 abalou todo o mundo, período conhecido como a Grande Depressão.

Alguns historiadores defendem que a Primeira Guerra Mundial trouxe benefícios para a indústria brasileira, outros o contrário. Com a guerra, o número de importações diminuiu e com isso, os industriários brasileiros, inclusive os cafeicultores, começaram a investir no setor industrial. E com esse embalo Pós-Primeira Guerra Mundial, indústrias de bens de consumo continuaram a ganhar extrema importância, principalmente o ramo da indústria têxtil. Nas décadas de 20 e 30 houve uma oscilação na produção de algodão e café em que num determinado momento um demandava mais e vice-versa.

Mais uma vez, o período que começa em 1929-1930 aparece como muito relevante. Naqueles anos, abriu-se a crise do café, cujo papel na agricultura de exportação começou a declinar. A produção de algodão cresceu, destinando-se tanto à exportação como à indústria têxtil nacional. Entre 1929 e 1940, a participação do Brasil na área plantada de algodão, em todo mundo, aumentou de 2% para 8,7%. Nos anos 1925-1929, a participação do café no valor total das exportações brasileiras era de 71,7%, e a do algodão, de apenas 2,1%. No período 1935-1939, a participação do café caiu para 41,7% e a do algodão aumentou 18,6%. (FAUSTO, 2009, p. 392).

Não se pode deixar de lado, em primeiro lugar as perdas humanas ocorridas nas Guerras; algo lastimável e irreparável. Fora as mortes, milhares de sobreviventes perderam membros do corpo, ficaram surdos, loucos, inconscientes e muitos ao chegar a casa, se deparavam com outro na família ocupando seu lugar. A Europa ficou em ruinas, a crise se instalou e uma reestruturação deveria ser feita para organizar os países. Vários tratados foram assinados entre países, inúmeras divergências e acordos não concluídos, mas de certa forma o período de Guerra e pós Guerra, serviu de impulso para indústria não apenas no Brasil mais em todo mundo e sabemos que Guerras é um grande negócio e os Estados Unidos lucrou bastante após a 1ª e 2ª Guerra Mundial.  Houve a tentativa em 1928 de países assinarem um tratado de desarmamento, ao contrário, isso agravou a situação com a retirada da Alemanha.

Indústria em Belo Horizonte, 1940. Foto: Alois Feichtenberger. Acervo MIS|GO

A Segunda Guerra Mundial teve como protagonista Alemanha Nazista de Adolf Hitler em busca da hegemonia mundial almejava concluir seus planos malignos. Uma guerra industrial era visível, pois quanto mais tecnologia e logística mais chances de obter êxito no conflito haveria. A Alemanha investiu pesado em tecnologia e ciência em função da guerra para tentar vencer a qualquer custo os inimigos, um país que ficou em ruínas pós-Primeira Guerra Mundial, já no início da década de trinta começa a recuperar sua economia, após também sofrer com a Grande Depressão, e isto foi considerado por especialistas um “milagre econômico”. Infelizmente o lado negativo dessa recuperação e durante o período de guerra foi o trabalho forçado nos campos de concentração onde centenas de milhares de pessoas trabalhavam vinte e quatro horas por dia em uma indústria que não parava. Após o término da 2ª Guerra Mundial, foram calculadas inúmeras perdas humanas, materiais, sistemáticas e países sem chefes impossibilitados de se reerguerem.

Duas grandes potências estavam agora em uma nova guerra, a Guerra Fria. Esta foi uma disputa por hegemonia entre os dois países que possuíam grandes diferenças: De um lado Estados Unidos, potência mundial, defendia a expansão do sistema capitalista, baseado na economia de mercado, sistema democrático e propriedade privada e de outro a U.R.S.S. – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas um sistema socialista, baseado na economia planificada, com único partido (Partido Comunista), igualdade social e falta com ausência de democracia. Esse conflito, diferente das duas grandes Guerras, foi ideológico onde a potência capitalista dos Estados Unidos através de ajuda econômica com empréstimos para reconstrução dos países devastados pela Guerra e impedir novas forma de políticas (Socialismo e Comunismo) avançarem e marcharem outros países. Os Soviéticos buscaram investir em tecnologia e ciência para recuperar o tempo perdido, sendo que o país era considerado extremamente atrasado e com tecnologias arcaicas. Ciência, física, matemática e astronomia tiveram grande avanço nesse período com destaque para a disputa espacial entre as duas potências.

Enquanto na América do Norte e na Europa os países se organizavam e se confrontavam ideologicamente e abraçavam a herança tecnológica do período entre Guerras, no Brasil a partir da década de 30, grandes passos foram dados rumo à industrialização e investimentos. O contingente urbano cresceu e junto novas atividades industriais surgiram e outras cresceram como, por exemplo: indústria de alimentos, roupas, higiene pessoal, cosméticos, vestuários e outros.

As duas grandes Guerras que assustaram o mundo e causou uma divisão econômica, política e social entre alguns países deixou uma herança de invenções e investimentos que podem ser vistos até hoje como, por exemplo: antibióticos, ambulâncias, banco de sangue, chá em saquinhos, comida enlatada, absorventes higiênicos, fita adesiva, café solúvel, computador, forno micro-ondas, detergente, fibras sintéticas e outras. O mundo não quer mais sofrer com essas atrocidades. A Guerra leva vidas para as trincheiras, lugar de onde talvez não haja retorno. O que o mundo pode fazer é evitar a repetição desse caos sanguento e aproveitar o que de bom (se é que se pode dizer “bom”) que a Guerra deixou como herança.

Texto: Valter Lopes - Historiador

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FONTES:
BLAINEY, Geoffrey. Um breve história do mundo / Geoffrey Blainey ; [versão brasileira da editora] – São Paulo, SP : Editora Fundamento Educacional, 2009.
RÉMOND, René. O século XX de 1914 aos nossos dias – introdução à história de nosso tempo. Trad. Octavio Mendes Cajado. Ed. Cultrix – SP; Título original: LE XXº SIECLE de 1914 à nos jours – Éditions du Seuil, 1974.

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